O Amanhã Nunca Morre, ou Sobre a Protelação

Quantas vezes prometemos a nós mesmos nunca adiar nossas obrigações para o último minuto, só para chegar novamente ao ponto quando ficamos procurando desculpas. Ou pior ainda, quando tentamos solucionar a crise em pânico e dizemos a nós próprios que já é tempo de aprender a gerenciar nosso tempo melhor. Talvez seja melhor deitar as culpas para cima de algo que não a nossa falta de capacidade de gerenciar o tempo.

Protelação é o adiamento da execução de tarefas, muitas vezes até ao último minuto. Contrariamente à crença popular, isso não é preguiça. Os proteladores estão frequentemente atarefados; o problema é que, em geral, não estão atarefados com o que deviam para executar as tarefas com que se comprometeram. Outra característica da protelação é que não afeta todos os aspectos da vida. Uma pessoa pode ser ótima no seu emprego, mas terrível na lida doméstica ou na vida social; outra pessoa pode ser fantástica a gerenciar sua vida privada mas vive falhando prazos no seu emprego. Por vezes, afeta a implementação de planos de vida que vão levar a mudanças positivas, como contratar um plano de academia ou comprar um carro.

Como operam os proteladores?

No início, eles ficam dizendo a eles próprios que vai ter muito tempo para completar a tarefa, por isso não precisa começar logo. Passado algum tempo, lhes ocorre que talvez seja hora de começar. Nesse momento, essas pessoas ficam encontrando desculpas aparentemente racionais para não completar a tarefa na hora. Muitas vezes também negam que estejam protelando. Por fim, a tarefa é completada no último minuto, ou não é de todo, especialmente se a fraca prestação não acarreta uma penalização dolorosa. Depois disso tudo, os proteladores prometem nunca mais adiar o que quer que seja, até à próxima tarefa que esteja de alguma forma associada a pressão.

De onde vem a protelação?

Se o adiamento se torna uma fonte de estresse, tensão e problemas sérios no emprego, na escola ou nas relações pessoais, é boa ideia fazer psicoterapia, durante a qual podemos descobrir, por exemplo, por que é tão difícil começar a agir, e as razões podem ser muitas, como:

  • Medo: Pessoas que tiveram de satisfazer expetativas elevadas desde muito cedo e que ouviram que elas eram ou tinham de ser as melhores, muitas vezes lidam com o medo de falhar adiando a execução da tarefa. Isso lhes dá um sentimento temporário de segurança ilusória. Quando elas conseguem completar a tarefa no último minuto, podem dizer "Sou melhor que os outros, porque consigo bons resultados mesmo sem trabalho sistemático". Por vezes, essas pessoas têm dificuldade em satisfazer suas necessidades, ou mesmo em as identificar. Por vezes, durante a terapia, elas percebem que na verdade não querem executar as tarefas com que se comprometeram. Porém, com tempo, elas podem aprender auto-observação e ultrapassar as barreiras que as impedem de alcançar o que é realmente importante para elas.
  • Perfeccionismo: Para algumas pessoas, o nível foi muito alto no passado, e agora elas esperam de si mesmas perfeição na execução de tarefas. Elas preparam a execução da tarefa de forma tão meticulosa que ficam sem tempo para a completar. Outras aliviam o estresse aperfeiçoando coisas que não necessitam de ser perfeitas. É importante aprender a lidar com a tensão de forma mais construtiva.
  • Sabotagem: Também há pessoas que não sabem lidar com responsabilidade e expectativa de sucesso, e se protegem disso protelando. Se elas não conseguem alcançar o objetivo, elas podem dizer: "não é falta de capacidade; eu só não tive foi tempo". No processo terapêutico, ou em outra forma de assistência psicológica, com tempo elas podem se tornar suas próprias "aliadas" e auxiliares.
  • Estresse: Algumas pessoas atuam eficientemente com stresse e adrenalina. Elas atingem esse estado adiando muitas tarefas para o último minuto. Essas pessoas, muitas vezes, tiveram situações estressantes desde que eram crianças e, de algum jeito, não conseguem imaginar outra forma de funcionar. Se o custo emocional e de saúde é muito alto, é aconselhável analisar o funcionamento de cada um, em especial depois de entender que não fazer nada pode ser muito valioso. Nós encontramos muitas soluções quando não estamos trabalhando, mas "em contato com nós mesmos".

A psicoterapia permite não só descobrir o porquê da nossa protelação, o nosso padrão destrutivo, mas também nos ajuda a entender os padrões disruptivos, enfraquecer esses padrões e aprender formas melhores de atender às nossas necessidades. Os terapeutas também poderão dar tarefas para executar em casa para melhorar a auto-observação, praticar novas capacidades e experimentar com novas técnicas.

Por isso, da próxima vez que reparamos que, em vez de fazer alguma coisa importante, damos uma checada no Facebook, talvez seja útil ver isso de forma diferente e pensar sobre o que estamos fazendo, e qual a razão para a nossa protelação?

 

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